Longa surge para mostrar uma rara perspectiva

“É, o país está mudando mesmo…”, diz a patroa “Bárbara” (Karine Teles) ao saber que a filha da empregada vai prestar vestibular. Já “Val” (Regina Casé) desfere durante o filme: “A pessoa já nasce sabendo (sua posição)”. Outra frase de sua autoria é: “Quando eles oferecem alguma coisa deles, é por educação; eles sabem que vamos dizer não”. Sim, “Que Horas Ela Volta?” é um dedo na ferida. Clique aqui para assistir!

O longa de Anna Muylaert mostra através destas falas o retrato de um tempo. De uma situação. De uma relação que vem sendo estabelecida há décadas entre patrões e empregados. Entre a “generosa” elite e seus subalternos. “Val” é a protagonista desta história que se passa quase que na totalidade no nobre bairro do Morumbi, em São Paulo.

Mas para a pernambucana estar ali foi preciso abrir mão de muita coisa. Entre as quais a companhia de sua filha “Jessica” (Camila Márdila). São 10 longos anos sem vê-la. E claro, uma relação totalmente abalada. Nesse meio tempo trabalhando apenas na casa desta família, “Val” logo cria uma relação muito forte com o filho do casal que serve.

Confira o trailer de “Que Horas Ela Volta?”: 

Contudo, “Jessica” vem para São Paulo prestar vestibular na FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP). Sem ter onde ficar, ela acaba ao lado da mãe na casa dos patrões. E é aí que temos o início do processo proposto pelo filme. “Val” e “Jessica” são de diferentes gerações, com formas diferentes de encarar a vida.

Se por um lado “Val” aceita a falsa sensação de pertencimento, sua filha, por outro lado, não. Questionadora, “Jessica” chega a São Paulo para sacudir a vida de todos nesta casa. Inclusive parte da própria “Val” alguns dos momentos mais constrangedores, e por vezes, ela acusa a filha de ser “metida”.

A jovem logo desperta o interesse sentimental por parte do pai “José Carlos” (Lourenço Mutarelli) e do filho “Fabinho” (Michel Joelsas), em um sinistro lance de posse. E sua atitude de não baixar a cabeça incomoda seriamente a patroa. Até mesmo o fato de prestar vestibular ao mesmo tempo que o filho do rico casal cria constrangimentos. Incômodo que fica evidente, principalmente com a questão da piscina. O troco dado por “Val” no final, entretanto, é a altura.

Com toda a certeza a ideia do filme é incomodar. Doer na pele. E seu grande mérito é colocar quem assiste sob a perspectiva da empregada. Querida e bem vista, até certo ponto. Até desejar mais. De fato, “Que Horas Ela Volta?” nos machuca por sua brutal veracidade. Seja pelo jeito alienado e frio da família ou pela passividade com que “Val” aceita ser menosprezada, e pior, até a forma como ela mesma censura sua filha.